Posse da direcção do Núcleo da Costa do Estoril
Tomou posse no dia 29 de Outubro a primeira direcção do Núcleo da Costa do Estoril da Real Associação de Lisboa, que abrange os concelhos de Cascais e Oeiras, presidida pelo Engº José Paulo Serra Pinto. Perante várias dezenas de pessoas, associados da R.A.L. , simpatizantes, membros da Direcção da Real Associação e dirigentes locais do PPM, os novos membros da Direcção assinaram o acto de posse, presidido pelo Presidente da Real Associação. No uso da palavra, João Mattos e Silva, depois de referenciar a política de descentralização e aproximação aos monárquicos nos vários concelhos, disse que o trbalho de esclarecimento dos portugueses “
tem de ser como que um apostolado: pelo exemplo, pelas acções, pela palavra. Junto dos que nos rodeiam. Nas famílias, nos grupos humanos onde nos inserimos, nos locais de trabalho, nas escolas, nas associações, nos clubes a que pertencemos. Trabalho que não é fácil, que não dá resultados imediatos, que é, essencialmente, o lançar da semente à terra para que, quando o tempo da colheita chegar e estou certo de que vai chegar mais cedo do que muitos julgam, se possa fazer a colheita.”. Seguiu-se um jantar que reuniu mais de oitenta monárquicos.
Posse da Direcção do Núcleo da Costa do Estoril
| 29 de Outubro de 2010 |
| 7:30 pm | até às | 11:00 pm |
C O N V I T E
Convidamos V. Exª. a participar no acto de Instalação e Tomada de Posse dos Corpos Directivos do Núcleo do Núcleo da Costa do Estoril, seguindo-se um jantar.
Estimados Associados
Temos a grata satisfação de anunciar que no próximo dia 29 de Outubro (6ª feira), pelas 19:30 horas terá lugar, a tomada de posse dos corpos directivos do Núcleo da Costa do Estoril (Oeiras e Cascais) da Real Associação de Lisboa, para a qual V. Ex.ª, Exm.ª Família e Amigos estão, desde já, convidados a participar, cerimónia à qual, se seguirá um jantar.
Este evento terá lugar nas instalações da CRUZ VERMELHA PORTUGUESA, a inaugurar brevemente, na freguesia de Parede, concelho de Cascais.
INSCRIÇÕES
As inscrições deverão ser efectuadas até 26 de Outubro, através de:
Telf.: 213 428 115 – 213 429 702
Fax.: 213 428 116
e-mail.: www.reallisboa.pt – geral@reallisboa.pt
JANTAR
O jantar terá o custo simbólico de vinte euros por pessoa (20,00 €uros)
Edifício da Cruz Vermelha
Praceta Doutor Barbosa de Magalhães
2775-162 PAREDE
Jantar dos Conjurados 2010
No dia 30 de Novembro, às 19hoo, no Convento do Beato, em Lisboa, o tradicional Jantar dos Conjurados, com a presença da Família Real portuguesa.
As inscrições, abertas a partir do dia 18 de Outubro, podem ser feitas na sede da Real Associação de Lisboa, das 10 às 13hoo e das 15h00 às 18h00, de 2ª a 6ª feira.
Artigo relacionado Jantar dos Conjurados: A Interpelação da Alma Portuguesa
O movimento monárquico está mais forte
Os Monárquicos – uma entrevista do Henrique Raposo, jovem historiador, politólogo e cronista do Expresso.
As comemorações ocas dos 100 anos da República tiveram um efeito inesperado: o movimento monárquico está mais forte. Eis uma pequena entrevista com um membro da direção da Causa Real.
No mainstream português, o monárquico é um bicho semi-fascista que come democratas ao pequeno-almoço, enquanto se prepara para cantar um faduncho reacionário. Mais: neste mito, os monárquicos pensam todos da mesma maneira, como se fossem comunistas-que-vestem-de-azul. Como é óbvio, os monárquicos de carne e osso não são bem assim. Para compreender melhor esta realidade, resolvi fazer uma pequena entrevista com um membro da direção da Causa Real, João Távora, um dos bloggers mais civilizados da nossa praça.
É impressão minha, ou o movimento monárquico ganhou força nos últimos anos? (Pelo menos, nas redes sociais já são um pequeno exército).
Sim, parece-me que a monarquia ganhou fôlego com o centenário da república . Depois, a Causa Real presidida pelo Paulo Teixeira Pinto trouxe algum pragmatismo, e a direção da Real Associação de Lisboa, que tomou posse há 18 meses, começou a usar as vantagens da Internet e algum profissionalismo na estratégia de comunicação. E, claro, tudo isto deve ser enquadrado na actual degradação da situação política, que tem revitalizado um pouco a nossa (pobre) Causa. Mas, por outro lado, temos limitações muito concretas: a Causa Real e as Reais Associações, não se constituindo como forças políticas de governação, não elegendo autarcas, deputados ou presidentes (apesar do forte suporte social que detêm), sem aspirações a serem clientes da república, lutam com enormes dificuldades de financiamento e patrocínio por parte dos grandes lobbies e empresas.
Não deixa de ser curioso: este crescimento é feito sem o PPM (Partido Popular Monárquico). Esse partido está morto?
O PPM atingiu uma completa insignificância nacional enquanto partido, o que é uma vergonha para a memória de alguns dos seus fundadores. Mas o facto é que esse partido é um contrassenso, dado que a instituição real é suprapartidária: não se pode exigir aos numerosos simpatizantes da monarquia em Portugal que se unam à volta de um mesmo partido, quando a única causa que os une é a fórmula da chefia do Estado (e talvez as cores da bandeira nacional). No resto, divergem em quase tudo, desde a política e a economia até aos costumes.
Por vezes, tenho a impressão de que os monárquicos de hoje repetem o erro dos republicanos de 1910. Ou seja, acham que basta trocar de regime (o rei no lugar do presidente) para que tudo fique melhor. Não acha que muita gente tem esta ilusão?
Concordo que há esse perigo: não nego a evidência de que os grandes males de que Portugal padece são profundos, e estão a montante da forma do regime. Os portugueses continuam viciados no assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino cuja perspetiva não passa do amanhã. Cabe aos monárquicos, dentro das instituições existentes do sistema, estar a favor da mudança e do futuro do país, usando a liberdade que esta república, apesar de tudo, proporciona. Eu defendo a criação dos núcleos monárquicos dentro dos partidos, mas eles têm muito medo de descentrar as “agendas”. Só assim se entende como diversas personalidades políticas simpatizantes da monarquia e dispersas pelos vários partidos, algumas de grande craveira e capacidade de influência, sejam tão prudentes na afirmação das suas convicções monárquicas.
Mas ainda há outro perigo: os monárquicos para quem a Causa não faz sentido sem uma colagem a uma ideologia política, normalmente ultraconservadora e que mistura outras vertentes como a religião e valores existenciais. Isso reduziria o sonho a um nicho de patuscos. São planos que urge separar!
Tem a noção de que, aos olhos da grande maioria das pessoas, esses “patuscos” são os “monárquicos”?
Tenho a noção de que há um grande trabalho de comunicação a fazer. O preconceito e a ignorância são barreiras muito difíceis de se ultrapassar. Não se resolve numa geração, só com muito trabalho, sobriedade e coerência. Necessitávamos como de pão para a boca de uma nova geração de grandes referências intelectuais, como aquelas que tivemos no século XX.
Henrique Raposo – A Tempo e a Desmodo
A imonarquia – Miguel Esteves Cardoso (In Público 05-Out-2010)
Há cem anos foi violentamente interrompida a monarquia constitucional e democrática, seguindo-se várias patifarias armadas em regime, mal ou bem-intencionadas, cuja única semelhança era não serem monárquicas.
A antiguidade boa, que é a monarquia, está para a democracia como os nossos pais (que não escolhemos) estão para as pessoas com quem casamos (que escolhemos). Coexistem as duas famílias – aquela que nos calhou, para o bem e para o mal, que podemos odiar ou amar ou nem isso (a dos nossos pais), e a que escolhemos, para o bem e para o mal, que podemos amar e odiar e trocar ao mesmo tempo (as pessoas com quem vamos estando e os filhos que vamos tendo).
Tem graça e força que os filhos, quando se têm, quer se queira ou não, têm mais força do que os pais – o princípio hereditário é mais aceitável a quem nos é imposto por uma acção nossa (termos um filho) do que por uma acção dos nossos pais (terem-nos).
A verdade humana, tal como a política, contém sempre as consequências do que se herda e do que se faz; do que se escolhe com liberdade e da liberdade (e falta de responsabilidade) do que não se pode escolher. A monarquia é a linha dum país, tornado em família. Não precisa nem de ser eleita nem amada nem tida nem achada.
A palavra a que chamam aqueles que são contra a monarquia não tem nem deixa de ter nada a ver com a liberdade ou com a democracia e é por isso que sempre a desrespeitei e hoje me recuso a pronunciá-la. Tenho-lhe raiva.
Real, real, real! Viva D. Duarte,o rei de Portugal (In Diário de Notícias 06-Out-2010)
Duarte Pio juntou partidários na terra onde nasceu Afonso Henriques para comemorar o 5 de Outubro dos monárquicos.
Em Guimarães, no ” berço da nacionalidade”, ouviram-se ontem vivas ao rei de Portugal. E não era uma dessas, agora muito em voga, feiras medievais. Os vivas tinham como destinatário o duque de Bragança, D. Duarte Pio, que festejava com algumas centenas de monárquicos o 5 de Outubro.
Cada um festeja o seu 5 de Outubro. Para os republicanos é o de 1910 que conta; os partidários da Causa Monárquica recuam a 5 de Outubro de 1143, dia da assinatura do Tratado de Zamora, uma data “fundadora para Portugal”, lembrou Duarte Pio.
“Portugal tem um rei”, lia-se num cartaz, à entrada do Paço dos Duques, o local escolhido pelos monárquicos, vindos de todo o País, para prestarem “lealdade” ao simbólico candidato ao trono de Portugal. Do cimo de um cavalo, à chegada do duque de Bragança, alguém lançava a palavra de ordem: “Real, real, real! Viva o rei de Portugal!”
“Sua alteza”, assim foi apresentado D. Duarte Pio, sorria para as crianças e cumprimentava os partidários da nobre causa. Depois, já no interior do Paço, discursou. E foi duro com a “invasão mental estrangeira” que “ocupou Portugal em 5 de Outubro de 1910. Nessa data, disse de forma metafórica, foi destruída “a comunidade de sonhos, a que chamamos Pátria”.
E para descrever o “pântano” aonde a “Pátria” mergulhava, por obra dos homens da República, D. Duarte usou palavras “dos nossos maiores escritores”. Camões, Ramalho Ortigão, Eça, padre António Vieira ou Fernando Pessoa, citado várias vezes.
A república “francesa que implantaram em Portugal”, referiu o candidato ao trono, pela voz do poeta da Mensagem, “foi um fenómeno da nossa decadência, da nossa desnacionalização”. Um discurso sempre a olhar para o passado, raramente uma alusão ao futuro. Para encerrar, a última estrofe do poema Nevoeiro, de Fernando Pessoa.
“Ó Portugal, hoje és nevoeiro…/ É a hora!”, declamou D. Duarte. E, de seguida, um apelo: “Portugueses, saibamos fazer a hora. Restauremos a esperança na lusitana antiga liberdade.” Houve um forte e longo aplauso, bandeiras – azul e branco, com a respectiva coroa – levantadas. A partir daí, alguém avisou os presentes: quem ainda o não tinha feito, “podia ir dar os cumprimentos a suas altezas” .
Em declarações aos jornalistas, no final da “alocução” aos fiéis partidários da causa, o candidato ao trono disse não ter dúvidas de que os portugueses viveriam melhor com um rei. “A monarquia, como se vê noutros países da Europa, pode dar algo mais à democracia que vivemos hoje.”
Voltou a atacar os homens da primeira República. “Esqueceram os ideais, perseguiram a Igreja, os opositores, criaram obstáculos à liberdade nos jornais. Foi caótico. Por isso, o povo apoiou longos anos a ditadura” salazarista.
De regresso ao presente, o duque de Bragança concorda com o apelo ao consenso político feito pelo Presidente da República. “Tem toda a razão porque medidas duras têm de ser tomadas por consenso.”
Nas situações de crise, considerou, o consenso é “indispensável”. Se as medidas forem tomadas por um partido só “torna-se difícil, porque será penalizado nas eleições”. O consenso político partidário deve abranger, “pelos menos, os que têm responsabilidade nas governações passadas”.
A cerimóniade ontem, na cidade onde nasceu o primeiro rei de Portugal, juntou algumas centenas de apoiantes da causa monárquica. Vieram de vários pontos do País. Uns de mais longe, outros de mais perto. Como foi o caso de Rui Barandas: veio do Porto ouvir o candidato ao trono.
Mónarquico por várias razões. E a primeira que ponta talvez seja influenciada pelos tempos de crise. “O orçamento do nosso presidente da República é oito vezes superior ao das monarquias modernas da Europa”.
Por outro lado, argumenta Rui Barandas, “um monarquia dá mais prestígio. Portugal tem 800 anos de monarquia, não se pode deitar essa legado ao lixo”.
Depois da alocução aos distintos apoiantes, D. Duarte Pio de Bragança, acompanhado por D. Isabel Herédia, fez uma passeata pelas ruas de Guimarães. Mas aí, enfim, não se ouviram vivas ao “rei”.
por Francisco Mangas
Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1678856
Opinião – Um monumento de ignomínia
Um monumento de ignomínia
por VASCO GRAÇA MOURA
A Primeira República portuguesa foi um monumento de ignomínia. As comemorações em curso não podem escamotear esse facto e deveriam proporcionar aos portugueses uma visão altamente crítica desse período da nossa história. Historiadores como Vasco Pulido Valente e Rui Ramos já o têm feito e bem. Mas nunca será demais insistir.
Tem sido frequentemente observado que, na monarquia constitucional, o liberalismo foi abrindo a porta a uma dimensão republicana. De facto assim foi. A partir da estabilização ocorrida em meados do século XIX, viveu-se em Portugal uma era “republicana” de tolerância e de fruição das liberdades que só havia de extinguir-se pela força em 1910. Isto, apesar de todos os problemas que o constitucionalismo português foi tendo, da fragilidade do Estado e das suas instituições a uma catadupa de situações escandalosas e insustentáveis, passando por políticas erráticas, incompetentes e contraditórias, crises políticas e sociais, buracos financeiros insolúveis, corrupção, tráfico de influências, caciquismo, analfabetismo, atraso crónico e generalizado face à Europa e outras maleitas graves.
A monarquia constitucional acabou por cair de podre. Afundou-se no fracasso geral das instituições e no desprestígio mais completo dos partidos. Perdeu o pé no entrechocar das rivalidades, despeitos, ajustes de contas e interesses inconfessáveis dos grandes figurões de um regime em que os republicanos já se encontravam instalados por “osmose” pacífica havia muito, enquanto a tropa, quando não conspirava, ia assobiando para o lado. Tudo isso foi assim. Mas nunca a monarquia constitucional em seis décadas cometeu crimes comparáveis aos que a República praticou em meia dúzia de anos.
As comemorações do centenário da República têm de falar desses crimes. Eles foram cometidos sob a batuta de uma das figuras mais sinistras da nossa história. Graças a Afonso Costa e aos seus apaniguados organizados em milícias de malfeitores, a Primeira República, activamente respaldada pela Carbonária (e, mais tarde, por uma confraria de assassinos chamada Formiga Branca), nunca recuou ante a violência, a tortura, o derramamento de sangue e o homicídio puro e simples. Instaurou friamente entre nós o pragmatismo do crime. Institucionalizou a fraude, a manipulação e a batota generalizadas em todos os planos da vida portuguesa. Manipulou e restringiu o sufrágio, excluindo dele os analfabetos, as mulheres e os padres. Perpetrou fraudes eleitorais sempre que pôde. Perseguiu da maneira mais radical e intolerante o clero católico, por vezes até ao espancamento e à morte. Levantou toda a espécie de obstáculos ao culto religioso e à liberdade de consciência. Cometeu as mais incríveis violências contra as pessoas. Apropriou-se do Estado, transformando-o em coutada pessoal do Partido Republicano Português…
Em 1915, Portugal deve ter sido um dos pioneiros na defesa do genocídio moderno. Na campanha militar que se desenrolava no Sul de Angola, as atrocidades são de pôr os cabelos em pé. Nas Actas das Sessões Secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a participação de Portugal na I Grande Guerra (ed. coordenada por Ana Mira, Lisboa, AR e Afrontamento, 2002), encontra-se o depoimento de um militar, segundo o qual “temos ordem para matar todo o gentio desde dez anos para cima” (p. 151). E os outros depoimentos testemunhais, ali reunidos de pp. 148 a 153, ilustram macabramente essa afirmação. Confrontado com esta situação no Parlamento, Afonso Costa foi peremptório: “Não nos deixemos mover por idealismos nem esqueçamos o conceito e impressão dos pretos perante respeitos humanitários que ele [orador] considera como fraqueza ou pusilanimidade” (op. cit., p. 115), ao que Brito Camacho respondeu que “civilizar com a navalha e a carabina não é humanitário nem científico. As chamadas raças inferiores são apenas raças atrasadas; não é possível civilizá-las, exterminando-as” (ibid., p. 117).
No momento em que escrevo, antevéspera da famigerada efeméride, não sei ainda o que é que o jacobinismo irresponsável de uns, a complacência timorata de outros e a versatilidade diplomática de muitos virão a dizer nas cerimónias oficiais. Mas como se corre o risco de estas coisas não serem publicamente referidas, aqui fica mais uma síntese muito incompleta delas, para que conste. Cumpro desta maneira a minha obrigação de republicano.
Diário de Notícias – 6 -10-2010
Não é olhar para trás, é andar para a frente (In Diário de Notícias 02-Out-2010)
É impossível saber quantos são os portugueses que defendem a restauração da monarquia, mas a verdade é que os ideais monárquicos têm vindo a ganhar visibilidade, quer na Internet quer em acções de rua. Dizem que, por precisar do apoio dos partidos políticos, o Presidente da República nunca pode ser completamente independente, e defendem que o rei não só é o representante natural e de todos os portugueses, mas também um garante da unidade nacional e da estabilidade do País. Num momento de crise – não só económica mas, sobretudo, de valores – os ideais monárquicos podem ganhar cada vez mais terreno. No dia 5 de Outubro, um grupo de monárquicos vai reunir-se em Guimarães para uma declaração de lealdade a D. Duarte.
No telemóvel de Hélio Loureiro está a imagem da bandeira azul e branca, símbolo da monarquia portuguesa. O chef do Porto Palácio Hotel, conhecido por ser também o responsável pelas refeições da selecção nacional de futebol ou pelas receitas económicas que aconselha na televisão, preparou as ementas da apresentação de Afonso, o primeiro filho de D. Duarte, e do baptizado de Dinis, o filho mais novo. Podia ter sido só trabalho, mas foi mais do que isso. Hélio Loureiro usa o brasão da Casa Real na lapela e não esconde as suas ideias: “Sou monárquico convicto, não por tradição familiar mas pela certeza de que a restauração monárquica traria uma nova esperança para Portugal.”
Descobriu-se monárquico aos 15 anos. “A minha geração é muito politizada, a conversa à mesa do jantar passava sempre pela política, o meu irmão era da esquerda radical. A mim não me deu para isso”, recorda. Leu o Capital, de Marx, os pensamentos de Engels, o Livro Vermelho de Mao, mas depois continuou as leituras até encontrar resposta para as suas dúvidas políticas. Foi através de Gonçalo Ribeiro Telles que chegou ao pensamento monárquico, num momento em que dizer em Portugal que se defendia a monarquia era quase o mesmo do que defender o fascismo. Nada que o intimidasse: “Ser católico dá trabalho. Ser muçulmano dá trabalho. Ser judeu dá trabalho. Ser monárquico dá trabalho. Quando se é alguma coisa na vida é preciso trabalho. O mais fácil é não ser nada e não tomar posição, dizer que não se sabe. Quando se toma posição tem de se ter os pés bem assentes na terra e saber o que estamos a dizer. Com consciência.” E que implica uma acção pública, como diz Hélio Loureiro: “Faz parte da minha missão enquanto português mostrar que há outro regime para além deste, que há outra verdade para além desta verdade, que isto não é o fim de uma etapa de Portugal, se calhar é uma transição.”
Por tudo isto, a sua ausência será notada. Hélio Loureiro não vai estar esta terça-feira em Guimarães na declaração de lealdade a D. Duarte. “Gostaria muito de ir, mas marquei férias para esta semana. Não queria estar em Portugal nesta altura. Para não me enervar.” Afinal, não deve ser fácil para alguém que defende profunda e publicamente a monarquia estar rodeado de celebrações do centenário da República – celebrar o quê?, perguntam os monárquicos, o regicídio?, a mudança de regime contra a vontade do povo português?, uma primeira República caótica, com retrocessos nos direitos fundamentais?, a ditadura que se lhe seguiu?, o PREC? Celebrar o quê? Este é o primeiro argumento de quem defende a monarquia: os monárquicos não falam da implantação da República mas antes da sua “imposição”, contestam a legitimidade do novo regime e não perdoam a tirania.
“Sempre associei a monarquia à liberdade, devido à história não só do nosso país mas dos outros países da Europa. Na Alemanha e Espanha, as ditaduras aconteceram após o fim da monarquia”, explica João Braga, 65 anos, monárquico desde sempre. “Era muito miúdo e lembro-me de chorar a ouvir, na rádio, a cerimónia do enterro da rainha D. Amélia”, recorda. A influência da família foi determinante mas, apaixonado por história, o fadista aprofundou o tema e tornou-se um dos principais rostos da defesa da monarquia – “Existe aquele cliché: eu sou monárquico porque sou português. Não é que os republicanos sejam menos patriotas do que os monárquicos. Mas, quando Portugal foi grande, como nós entendemos uma nação grande, foi durante a monarquia. Portugal nunca foi tão pequeno como está ser nestes cem anos de república.”
Isto é algo que preocupa Mariana Filippe, que herdou do pai o gosto pela pintura e a lealdade ao rei. Uma dos nove filhos de João D. Filipe, pintor especialista em arte sacra, lembra-se de como, lá em casa, as conversas sobre política eram também conversas sobre a responsabilidade social e os valores que regem a nossa vida. “Comecei a pensar no que é que significa ser português e como é que nos revemos no país onde vivemos”, conta na sua voz pausada e tímida. Quando tinha 16 anos, a idade do “despertar da consciência política”, já era claro na sua cabeça que não se identificava com o regime republicano nem com a figura do presidente. “Aos 18 anos entrei para a Real Associação e comecei a estar mais envolvida. Depois escolheram-me como representante da juventude na direcção. É a minha forma de participação cívica.”
No atelier que partilha com o pai, mesmo em frente à Faculdade de Belas Artes, em Lisboa, onde já se licenciou em pintura e espera em breve começar o mestrado, Mariana, 22 anos, passa o tempo em tentativas e erros pintando retratos. “A arte figurativa está muito malvista nos dias de hoje, mas eu não me importo. É um desafio enorme. E gosto de retratar momentos de pausa, de reflexão, quase de suspensão do tempo, contrariando a agitação do quotidiano”, explica, entre sorrisos. Na política, como na arte, Mariana não se importa de ir contra a corrente. “Quando digo que sou monárquica, algumas pessoas desatam a rir. Mas ficam curiosas. E já aconteceu, em conversas, despertar o interesse de alguns amigos. Pô-los a pensar.” Não anda a tentar convencer ninguém, mas tem as suas explicações: “O rei é o símbolo de união, representa todo o País, enquanto o presidente só representa aqueles que votaram nele. Além de desagregação, isto provoca uma enorme instabilidade.”
Este é outro argumento para defender a monarquia: “Dizer que qualquer pessoa pode ser presidente da República é uma utopia. Estão a enganar-nos. Para se ser presidente tem de se ter o apoio de um partido e, logo, não se é independente. O presidente, por muito que queira, nunca está acima dos interesses partidários. Já com um rei isso não aconteceria”, afirma Francisco Franco de Sousa, de 22 anos, que, com o amigo Pedro Rodrigues Castro, está empenhado em animar o núcleo monárquico de Cascais. “Ser preparado desde o berço para a função faz toda a diferença”, acrescenta João Braga, que não esconde a sua admiração “pelo sacrifício que implica a dedicação à causa monárquica, há um dramatismo na sina de quem nasce para esta função. Não é um privilégio, é uma missão.” Uma missão para a vida inteira e que se prolonga nos seus filhos. “Isto é um garante da estabilidade, sabemos que o País não vai mudar o rumo de cinco em cinco anos, mesmo que mude o Governo, porque há algo que se mantém”, acrescenta Mariana Filippe.
Se há assim tantas vantagens, por que motivo não há mais monárquicos (pelo menos a assumirem publicamente as suas convicções)? “As pessoas continuam a achar que os monárquicos têm grandes bigodes e anel no dedo. Ou que são todos duques e barões. Há um estigma. É um preconceito que temos de mudar e cabe aos jovens fazê-lo”, afirma Pedro Castro. E são cada vez mais os jovens interessados pela causa monárquica, garantem. No ano passado, um grupo de monárquicos ligados ao blogue 31 da Armada – entre os quais Rodrigo Moita Deus, Henrique Burnay e Nuno Miguel Guedes – subiu à varanda do edifício da Câmara Municipal de Lisboa e hasteou a bandeira monárquica. Colocado online, o vídeo da “Restauração da Monarquia” causou enorme polémica e algum mal-estar entre os republicanos, mas teve o mérito de pôr toda a gente a falar do assunto. “Nas semanas seguintes houve imensas bandeiras hasteadas pelo País e até no estrangeiro”, conta Pedro. “Isto prova que existe muita gente descontente com o regime e que está disponível para agir.”
“Se esta celebração do centenário serve para alguma coisa, é também para pôr as pessoas a falar da monarquia”, diz Francisco. E a verdade é que, no último ano, os monárquicos têm estado cada vez mais visíveis. Já não se reúnem só no tradicional jantar dos Conjurados, a 30 de Novembro. Hoje mesmo, um grupo vai sair para as ruas de Lisboa em mais uma “arruada monárquica”, exibindo T-shirts azuis onde se lê “Eu quero um rei. E tu?”, agitando bandeiras, distribuindo folhetos, gritando “O rei é fixe, a república que se lixe.” David Garcia, 31 anos, é um dos que habitualmente participam nestas arruadas. “Acho que tem de haver uma maior abertura, uma aproximação à população”, defende, acrescentando: “Muita gente pensa que ser monárquico é pertencer a uma família rica e ser conservador ou de extrema-direita não é nada disso”, diz David, que não cresceu num meio monárquico nem pertence a qualquer elite. “Não tenho nenhuma tradição na família, sou um monárquico de consciência.”
Foi em 1995, quando assistiu ao casamento de D. Duarte com D. Isabel de Herédia, que se fez um clique na sua cabeça de 16 anos. “Fiquei muito interessado em perceber quem era este homem e comecei a estudar não só a nossa história como as outras monarquias que existem na Europa.” Foi o princípio de um caminho que o levou a ler livros como O Passado de Portugal no Seu Futuro, de Manuela Gonzaga, e a tirar o curso de História da Arte. Em 1999, associou-se à Real Associação de Lisboa. “Foi então que comecei a doutrinar-me, a perceber o vazio da República e a rever-me no princípio político defendido por D. Duarte”, conta. Além disso, “basta olhar para o nosso país hoje para percebermos que algo está mal”, diz. Ou como afirma Mariana Filippe: “Cada vez mais as pessoas estão descontentes e desanimadas. É nestes momentos que mais precisamos de um rei.”
Mais um argumento para defender a monarquia: os países europeus que vivem neste regime (Reino Unido, Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Espanha) parecem ter uma sociedade muito mais estável e harmoniosa e estar mais preparados para enfrentar a crise – se não em termos económicos, pelo menos em termos anímicos. A auto-estima de um povo e o “sentimento de pertença a uma comunidade que tem no representante histórico um garante da estabilidade” podem ser determinantes para a evolução de um país, dizem os monárquicos.
“Claro que não iríamos ter uma monarquia absoluta, todas as monarquias actuais são democracias onde os ideais da igualdade, liberdade e fraternidade estão muito mais presentes, talvez, do que na nossa república”, diz David Garcia. Ou, nas palavras de Hélio Loureiro: “Incutiram-nos a ideia de que os reis são uma coisa medieval e que eram todos tiranos. Tem-se a ideia de que a monarquia é uma coisa de direita quando o pensamento monárquico é mais à esquerda do que o pensamento republicano. Quando se descobre petróleo na Noruega, enriquecem todos, não só alguns. Por isso, quando as pessoas são questionadas seriamente sobre isto acabam por perceber. Não é voltar atrás, é andar para a frente.”
Nas arruadas, distribuindo folhetos e respondendo às perguntas dos transeuntes, David sente que está a cumprir a sua missão: “Vamos para a rua para dar alguma esperança aos portugueses, dizer-lhe que há um outro caminho e que Portugal tem muita potencialidade.” Da mesma forma, há quatro anos, decidiu iniciar um blogue a que chamou Projecto Democracia & Rei, onde publica notícias, vídeos, textos seus e de outros defendendo os ideais monárquicos. Mais recente, a página no Facebook já tem mais de mil membros. E este apenas um dos muitos sites e blogues associados à causa, desde as páginas oficiais da Casa Real ou da reais associações, passando por blogues simpatizantes – como o 31 da Armada (embora tenha também uma “ala marimbista”), o Pensar Portugal (de Ricardo d’Abranches), o Grupo dos Amigos de Olivença, o Livre e Leal (de Luís Aguiar Santos), o blogue de Pedro Quartin Graça, o Movimento 1128, e muitos outros. “Hoje é muito mais fácil encontrar outras pessoas que pensam como nós”, reconhece David Garcia. É mais fácil comunicar, organizar acções e passar a mensagem. “Na Internet usamos uma linguagem simples, apelativa, moderna”, explica. “Mostramos que a monarquia não tem nada a ver com privilégios.”
É comum falar da despesa e do fausto associados às casas reais, mas os monárquicos alegam que a maioria das monarquias custa menos que a nossa república: “Nem que seja porque não teríamos de pagar as reformas e os privilégios dos anteriores presidentes”, argumenta Pedro Castro. “As famílias reais têm o seu património. Dom Duarte não recebe qualquer pensão do Estado”, explica Hélio Loureiro. E não há ilusões quanto a cortes e a bailes. “Todos os Estados têm as suas elites e as suas despesas de representação. A república também tem uma elite económica, social, cultural”, explica Francisco Franco de Sousa.
Essa é também uma das lutas da duquesa Diana de Cadaval. “Ter um título significa, antes demais, ser portuguesa e honrar a tradição. A minha missão é inspirar-me no passado da minha família para tentar fazer melhor na construção do meu presente”, diz a duquesa, que é uma das figuras da nobreza portuguesa mais populares, sobretudo desde que se casou com o príncipe Charles Philippe. As fotografias da família são publicadas nas revistas cor-de-rosa ao lados das imagens das famílias reais europeias. Mas Diana de Cadaval insiste em dizer, em todas as entrevistas, que é uma mulher como as outras. “Sou uma mulher que trabalha e que, como tantas outras, luta pelos seus objectivos. Tenho muitos projectos e faço por realizá-los o melhor que sei e posso. Temos uma vida cheia – de preocupações mas também de pequenos prazeres. Não temos preconceitos, por isso tento tirar o maior proveito de uma ida ao mercado como de umas horas de jardinagem ou de um baile em que encontramos os nossos primos, duques, príncipes, reis…” Autora do livro Eu, Maria Pia e colaboradora da revista Caras, Diana de Cadaval recusa-se a ser meramente duquesa. Mas não esconde uma esperança: “Acredito que o povo é soberano, e respeito a vontade da maioria, assim ela tenha oportunidade de manifestar. Estamos numa democracia, não estamos? Então ao povo português deve lhe ser dada a oportunidade de escolher.”
Texto – Maria João Caetano
Fotografia © Paulo Spranger – Global Imagens
Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1676575
Festejar o 5 de Outubro com o rei (In Diário de Notícias 02-Out-2010)
No dia 5 de Outubro, quando no resto do país se celebrar o centenário da República, em Guimarães, o chamado “berço da nação”, para uma proclamação de lealdade a D. Duarte Pio de Bragança. “Vamos juntar os monárquicos à volta do Sr. D. Duarte no Paço dos Duques de Bragança”, explicou à Lusa João Távora, da direcção da Causa Real, que define o 5 de Outubro como “o corolário de uma série de infelicidades que sucederam a Portugal no final do século XIX e princípio do século XX”. Na ocasião, Dom Duarte fará uma aclamação seguida de cumprimentos. Mas esta não é a única iniciativa de apoio à monarquia nos próximos dias. No domingo, o PPM de Braga e a Real Monarquia Portuguesa promovem em Celorico de Basto um encontro de monárquicos “para pôr fim às divisões e manifestar apoio a D. Duarte Pio de Bragança como herdeiro da coroa”. O encontro, no qual participam D. Duarte e alguns membros da realeza espanhola, começa com uma recepção às 11.30, no Salão Nobre da Câmara Municipal, seguindo-se um almoço, e uma conferência sobre o tema “Monarquia 2010!”.
Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1676491