Onde menos se espera há um monárquico à espreita
Políticos e atores sociais vivem na atual República, mas preferem a monarquia. Alguns são nomes sonantes, outros nem tanto. Mas quase todos são surpreendentes
Os nomes percorrem todos os quadrantes sociais e políticos. Dos socialistas à direita, mas é no CDS que se concentram a maioria deles. Defendem o regresso à monarquia e por isso se filiaram na Causa Real, uma organização política que luta pela instauração da monarquia. “Uma monarquia democrática, constitucional, liberal e moderna”, defende o seu presidente, Paulo Teixeira Pinto.
À cabeça surgem nomes como Pauto Portas, presidente do CDS/PP, filiado desde jovem (ver texto ao lado), Luís Pedro Mota Soares, líder da bancada popular na Assembleia da República, que até ao ano passado pertenceu aos órgãos sociais da Causa Real, onde presidia à mesa da Assembleia Geral da Real Associação de Lisboa. “Preferia viver numa monarquia constitucional, com órgãos políticos democraticamente eleitos, mas em que a chefia do Estado é assegurada por um rei. Acredito que é a melhor forma de preservar um conjunto de valores nacionais e a que melhor garante a unidade de todos os portugueses”, explica o deputado centrista.
Filiados estão também Telmo Correia, ex-líder parlamentar do PP e ex-candidato a líder do partido, António Lobo Xavier, também ex-líder parlamentar do CDS/PP, e Luís Nogueira de Brito, secretário-geral do Partido Popular. José Lino Ramos é igualmente um monárquico convicto, filiado em Lisboa, assim como o presidente da assembleia distrital de Lisboa, João Rebelo. Ainda do partido centrista, pelo qual foram deputados, estão filiados João Almeida, atual presidente do Belenenses, e Adalberto Névoa de Oliveira, dono da Cabelte — uma empresa de cabos elétricos e telefónicos —, fervoroso defensor da monarquia e financiador da causa. E também José Luís Nogueira de Brito, ex-deputado do CDS e antigo presidente da Cruz Vermelha, e Alcino Cardoso, ex-secretário de Estado num dos governos de coligação PS/CDS.
O atual candidato à presidência da República e fundador da AMI Fernando Nobre filiou-se em 1993, embora agora negue simpatia pelo regime monárquico (ver caixa). Mas há também gente do PSD. Ainda antes do 25 de Abril de 1974 filiou-se Sá Carneiro, como forma de marcar a sua oposição ao regime. Depois da revolução registaram-se nomes como Falcão e Cunha, o já falecido ministro do Emprego e da Segurança Social no Xll Governo Constitucional, liderado por Cavaco Silva, Manuela Aguiar, ex-secretária de Estado e deputada pelo partido laranja, o economista Rui Carp, também ex-secretário de Estado de Cavaco Silva, ou ainda o professor universitário António Emiliano ou o médico Matos Chaves de Macedo, presidente da comissão política do PSD, no tempo Sá Carneiro.
Se do PCP ou do Bloco de esquerda não há qualquer nome nas listas, há-os de segunda linha do partido socialista. Com exceção do falecido José Luís Nunes, fundador do PS. São eles Pedro Henriques, um dos assessores do ministro Silva Pereira, Pedro Cegonho, presidente da Junta de Freguesia de Santo Condestável, João Gomes de Almeida, atualmente na comissão política da candidatura de Fernando Nobre a Belém, ou Rui Monteiro, da Juventude Socialista de Aveiro, Pedro Policarpo, assessor de Laurentino Dias, o secretário de Estado do Desporto de José Sócrates, ou Eduardo Valles, militante honorário da juventude socialista.
Na lista dos fiéis à monarquia há nomes de músicos como Pedro Aires Magalhães, o maestro Ivo Cruz ou o Fadista João Ferreira Rosa; de chefes de cozinha, como Hélio Loureiro; de jornalistas como Sérgio Coimbra ou Duarte Galvão; o fotógrafo oficial da Casa de Bragança, António Homem Cardoso, ou empresários como Miguel Júdice, filho do ex-bastonário da Ordem dos Advogados, José Miguel Júdice.
Fonte: Expresso nº 1972 de 14 de Agosto de 2010, p. 15

Paulo Portas, o realista convicto
O líder do CDS não exibe, mas também não esconde, a sua preferência. E diz que os países mais bem governados são monarquias
Paulo Portas, líder do CDS/PP, é monárquico por convicção. Filiado na Causa Real desde muito novo, faz questão de pagar as quotas todos os anos.
Apesar de não apregoar essa sua condição e de nem sequer se lembrar do ano em que se filiou, Portas afirma: “Gosto de ter as contas em dia”, acrescentando que deve ter entrado quando tinha “à volta dos 20 anos”.
No entanto, lembra-se bem porque o fez: “É uma questão sentimental, de coração”. Acredita que viveríamos melhor numa monarquia. Dá como exemplos os países nórdicos, a Inglaterra ou a própria Espanha, “que deve à monarquia e ao seu rei não ter tido uma segunda guerra civil”. E acrescenta: “Tenho a impressão de que os países mais bem governados são aqueles que têm monarquias constitucionais”.
Como cidadão, “enfada-me a cultura dominante, que não olha com realismo para o século XX”, Diz que os portugueses não conseguem olhar de forma clara e sem preconceitos para o que foi a l República, “Só tendo uma visão facciosa é que se diz que foi democrática. Houve imensas perseguições, a imprensa foi silenciada, os governos mudavam de três em três meses. Penso que esses anos explicam como e porque se desembocou no Estado Novo”.
Paulo Portas afirma que nunca fez desta sua filiação monárquica ação política ou propaganda. Preferia que na Constituição portuguesa houvesse a possibilidade da escolha do regime.
“O que é essencial é que se garantam as liberdades individuais. Não a forma de governo. Para mim, os portugueses são republicanos quanto ao modo de escolha do chefe de Estado, mas monárquicos quanto ao exercício da função do Presidente da República”.
Tem do pretendente ao trono, D. Duarte de Bragança, boa impressão. Encontram-se de quando em vez e diz ter com ele “variadíssimas conversas sobre agricultura e tradição. É uma pessoa muito simpática e sincera, embora se fosse rei teria que ser mais reservado sobre as suas opiniões”.
Fonte: Expresso nº 1972 de 14 de Agosto de 2010, p. 15

Fernando Nobre, o não praticante
O candidato presidencial e fundador da AMI inscreveu-se em 1993, mas nunca pagou as quotas. Não obstante, a Causa Real conta com ele
O candidato presidencial e fundador da AMI, Fernando Nobre, é um dos mais de dez mil portugueses filiados na Causa Real. Nobre filiou-se em Lisboa no início de 1993, mas nunca chegou a pagar qualquer quota. Nem a primeira. “Continua a ser nosso filiado”, disse ao Expresso uma fonte da Real Associação de Lisboa, onde Nobre tem a sua ficha de inscrição. “Nunca nos comunicou a sua desistência, nem veio levantar o boletim de filiação. Portanto, ainda consta dos nossos ficheiros”. Simpatizante do regresso de um regime monárquico para Portugal e filiado há 17 anos, Fernando Nobre manifestou-se indisponível para falar ao Expresso sobre o assunto. Há muito anos que o candidato à mais alta magistratura do Estado se assumiu como simpatizante. Já em Fevereiro, numa entrevista dada à revista “Sábado”, Fernando Nobre confirmou ter pertencido à Causa Real, mas diria também que agora era apenas simpatizante, acrescentando: “A História de Portugal não começou em 1910. Temos quase nove séculos de Historia. Vamos apagar oito e olhar para os últimos 100 anos?”.
Apesar desta filiação. Nobre afirmou mais recentemente em entrevistas ao “DN” e à TSF que era uma inverdade ser monárquico. É sim republicano. A verdade é que a sua inscrição como filiado da Causa Real se mantém intacta e jamais foi reclamada.
Fernando Nobre é também presidente da Assembleia Geral (com o mandato suspenso) do Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), um organismo de reflexão que é assumidamente “simpatizante de uma monarquia democrática”, referiu ao Expresso Mendo Castro Henriques, presidente da instituição. O instituto tem, aliás, no pretendente ao trono o seu presidente de honra e dos seus órgãos sociais fazem parte outros monárquicos, como o arquiteto Ribeiro Telles ou Diana Álvares Pereira de Melo, duquesa de Cadaval.
Fernando Nobre partilha também o gosto por ideais maçónicos da mais importante corrente portuguesa, o Grande Oriente Lusitano (GOL). A iniciação de Nobre aconteceu em Viseu.
Fonte: Expresso nº 1972 de 14 de Agosto de 2010, p. 15

D. Duarte acusa a nossa democracia de limitar o direito de escolha

São políticos num estado republicano mas estão Filiados na Causa Real uma organização política, com vários núcleos, cobrindo todo o território nacional e as regiões autónomas. Os seus nomes vão da direita à esquerda, de diferentes idades e condições sociais. Por todo o país há mais de dez mil filiados no movimento que defende e luta pela instauração da monarquia Encabeçada por Paulo Teixeira Pinto, ex-banqueiro e atual proprietário da editora Babel, responsável também pela proposta de revisão constitucional do PSD, a causa dos monárquicos em Portugal está ativa. Sucedem-se os encontros, os debates, as discussões nas redes sociais e aumenta todos os meses o número de pessoas que se querem filiar na Causa Real. “Na Real Associação do Porto temos um pedido de inscrição por dia”, diz o seu presidente Jorge Leão. Porquê? Dom Duarte de Bragança, o pretendente ao trono explica: “Temos uma república que não é completa, onde o povo é tratado como ignorante. A nossa democracia limita muito o direito de escolha ao não permitir que se pronunciem sobre o tipo de chefia de Estado que querem. É este um dos limites materiais da nossa Constituição”.
Ambicionar ser vassalo do país
Paulo Teixeira Pinto vai mais longe e diz que ao defenderem um regime monárquico constitucional estão a defender o futuro, dai o crescente interesse. “A monarquia não é um programa político, não é uma ideologia, não se antepõe a nenhum dos outros partidos. Pelo contrário, o que se pretende é uma monarquia diferente da de 1910, democrática, constitucional, mais moderna”. Num jantar ocorrido no Porto há duas semanas, onde estavam reunidos mais de 150 monárquicos do norte do país, o presidente da Causa Real dizia: “Não queremos fraturas, títulos, honrarias, não somos urna classe, uma casta. O maior título que podemos ambicionar é o de vassalo, do rei e do país”.
Mas os monárquicos dão sinais de vida através da formação e informação dos portugueses sobre as vantagens da monarquia, através de ações políticas ou exposições em escolas. E ao longo do ano têm atividades mais visíveis como a Festa Azul e Branca, que ocorre anualmente no dia 4 de outubro, e que no ano passado incluiu um passeio e festa a bordo de um cacilheiro no Tejo, seguida de uma arruada desde o Cais do Sodré até à Praça Luís de Camões, no Chiado, onde se situa a sede da Causa Real. Ou ainda mais importante, o jantar dos Conjurados, que se realiza no dia 30 de novembro, no Convento do Beato, e reúne mais de mil pessoas.
Fidelidade à família real
“Trata-se de uma manifestação de fidelidade à família real portuguesa, em memória da reunião dos Conjurados de 1640, quando se restaurou a independência portuguesa”, explicou ao Expresso, João Matos e Silva, presidente da Real Associação de Lisboa. Uma iniciativa que muito agrada a D. Duarte de Bragança, para quem “o rei é o símbolo da nação, é a figura que permite maior estabilidade da vida política. É um árbitro, independente, nem de esquerda nem de direita, e por isso poderia evitar o frequente conflito político a que Portugal está habituado”. E o pretendente interroga: “Como se aceita que o supremo árbitro da vida política pertença a um dos clubes que está em jogo?”. Mas mais importante para já, diz o pretendente, seria alterar os limites materiais da Constituição: “O que a Constituição diz é que não se pode alterar a forma republicana de governo. O que deveria dizer é que não se pode alterar a forma democrática de governo”.
Curiosamente, entre os próprios monárquicos existiram divisões sobre a sucessão de D. Manuel II. De acordo com o Pacto de Dover, que teria sido propiciado por Paiva Couceiro, D. Duarte Nuno, pai do atual pretendente, teria sido reconhecido herdeiro. Mas parte da nobreza apeada pelo 5 de Outubro, de que se destacam os marqueses do Lavradio, recusaram-se por anos a aceitar que o ramo absolutista, de que descende por via paterna D. Duarte, voltasse ao trono depois de ter sofrido a derrota frente aos liberais, reconhecida na Convenção de Evoramonte.
A Causa Real foi fundada durante a I República, como Causa Monárquica, com o objetivo de reunir os monárquicos de varias tendências políticas no apoio a D. Manuel II, que fugiu de Portugal a 5 de Outubro de 1910. A associação chegou ao 25 de Abril e foi posteriormente renegociada.
Texto – Cândida Santos Silva
Fotos – Jorge Simão
Fonte: Expresso nº 1972 de 14 de Agosto de 2010, p. 14